Voando na poesia





A bordo de seu 14-Bis, Santos Dumont jamais subiu tão alto quanto qualquer um pilotando um livro de poemas. Leia o livro Voo singular e prove a sensação de ser um bicho alado ou, quem sabe, sinta-se com a força de um tanque blindado munido com a delicadeza das asas. E, mesmo que suas asas sejam de cera, como as minhas, por favor, não me queira meter o medo de cair. Lembre-se de que, em um poema, o céu é o limite. Então, apenas, permita-se vagar, subir, brincar, ou fugir do rancor que atormenta, ou da ânsia da hora cinzenta. Sim, às vezes, é preciso levantar voo no meio da tempestade que troveja num céu negro. E, mesmo nessas horas em que o breu nos deixa indecisos, digamos: eis o amanhã, dar-lhe-ei um sorriso. Nesse voo singular que lhe proponho, não é preciso levitar na ilusão. Na escrita do poeta, não há qualquer coisa de dormência, ela dá descanso à carne sem, no entanto, atenuar a verdade, que às vezes é nua e crua e não nos promete nem mel, nem lua. Mesmo estando com as asas feridas, ainda é possível voar para cuidar da própria vida, subindo e aterrissando perto do coração. De olhos bem abertos, seguindo o lampejo dos vagalumes, ainda é possível ter um ninho em cada cume e saber do que se fazem as nuvens, até aquela cujo pingo não cai. Então, por favor, deixe-me voar ao seu lado, eu também quero ser um bicho alado.

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